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Histórias do serviço militar #01: Sd Praxes – parte II

Leia a parte um deste texto: Histórias do serviço militar #01: Sd Praxes – parte I.

DEFENDA SUA PÁTRIA FAZENDO O MELHOR QUE PUDER LONGE DAQUI

                   Pois bem.

                   Depois da minha cartada derradeira o jovem da faculdade não foi embora.

                  Ele continuou insistindo. Muito. Não só insistindo, como implorando para ficar. Eu só pensava no quanto talvez ele ficasse decepcionado quando percebesse que o Exército não é bem o que imaginamos quando estamos do lado de fora. É bem diferente na verdade. E não o é de uma maneira boa.

                   Na minha visão, ele tinha comentado sobre a faculdade dizendo que queria ficar como quem buscava uma saída honrosa. Deduzi que era uma semente de dúvida, sinal de claro de desistência. Concluí que ele aproveitaria melhor sua vida longe dali, se dedicando ao seu curso superior.

                   Por outro lado, ele sabia exatamente o que queria.

Entendeu a situação, visualizou possíveis critérios, entendeu seu impeditivo e reafirmou sua escolha antes que fosse tarde demais. Foi corajoso. Calculou, assumiu o risco e partiu pra dentro convicto.

                   Então lutou por isso como não sei se eu mesmo lutaria. Se estivesse no lugar dele com aquela idade falando com alguém tão ríspido quanto eu enquanto recebia ordens contrárias ao mue desejo. Isso me fez ter um grande respeito por ele (ainda que duvidando de sua escolha bem ali, na situação de conscrito bizonho, mas como um jovem muito determinado).

                   Acabamos escolhendo outro jovem que tinha uma situação familiar que julgamos ser a mais delicada entre eles. Quando demos a notícia, ele reagiu tranquilamente. Certamente, medindo sua determinação com a do jovem que acabara de brigar com todos para ficar.

                   Liberamos ele e terminamos nossas orientações, agora sem o danado de um intruso.

Eh conscrito… e nem começou.



DO QUE É FEITO UM BOM SOLDADO

                   O jovem da faculdade nos surpreendeu. Se mostrou mais que um excelente Soldado.

                   Era inteligente e observador. Entendia rapidamente os porquês e o modo como as coisas funcionam no ambiente e se adaptou rapidamente. Mostrou ser maduro e consciente de suas escolhas e responsabilidades. Era aquele tipo de Soldado que tipicamente costumamos perder no primeiro ano por outras oportunidades externas que surgem.

                   Mas, não, ele continuou.

                   Não só continuou, como também se voluntariou para o Curso de Formação de Cabos (CFC) numa época em que a cobrança na formação era de ferro, diga-se de passagem. Sempre que o via no CFC, ele estava sossegado na dele. Atento e de perfil baixo, acompanhava tudo, visualizando num futuro próximo o que pretendia alcançar.

                   No internato, e até no CFC, eu sempre o lembrava:

                   — E aí Praxes, não era melhor o senhor estar na faculdade, não?

                   Ele se ajeitava todo para responder como quem não quisesse transparecer displicência com a decisão de deixá-lo ficar:

                   — Não senhor, melhor estar aqui, Sargento!

                   Eu cavava mais fundo:

                   — Certeza, Aluno? Dá tempo ainda, hein… O paisano que entrou tá torando uma hora dessas felpudinho em casa…

                   E ele respondia, humilde e resignado:

                   — Certeza, Sargento! Depois vou fazer a minha.

                   Apesar de toda contrariedade ao trabalho no rancho, ele escolheu uma das qualificações militares de intendência no Curso de Cabos. Safamente, sabia que lá ele teria uma rotina previsível, um trabalho bem delimitado. Assim, conseguiria fazer seu tão almejado curso superior.

                   Ele se formou com ótima nota no CFC, foi promovido na primeira leva e em pouco tempo estava na tão sonhada faculdade. Quando estava no rancho, o trabalho fluía fácil. Ele era sempre solícito e fazia tanto quando chefiava seus subordinados. Metia a mão na massa e não tinha medo de trabalho. Era um exemplo silente de constância e propósito, incomum até entre os melhores entre nós.

                   Antes de ser um bom Soldado, era um bom homem.

É assim que reconhecemos um bom Soldado. É difíci de explicar, mas muito fácil de perceber.




AS COISAS MAIS VALIOSAS NÃO VÊM DE CIMA

                   Já na faculdade, ralando igual um maluco, tirava serviço para outros Cabos e fazia várias jornadas de trabalho dentro e fora do quartel.

                   Um tempo depois, comprou alguns cavalos e estava cuidando também de uma fazenda. Brincávamos que ele ficaria rico e provavelmente abriria um bufê, um restaurante ou compraria outra fazenda em breve.

                   Era uma alegria muito grande para mim, a cada vez que o encontrava na rotina do dia a dia, nos campos e nas missões, ver o quanto ele se desenvolvia e o quanto era um profissional comprometido. E que ainda brigava e argumentava pelo que acreditava da mesma forma que fez quando entrou.

                   Um dia, quando conversávamos, ele me disse que sentia uma raiva muito grande de mim desde a Seleção Complementar. Que, no internato, e mais ainda no CFC, ele tentava se esconder de todas as formas quando me via. Mas, eu sempre o achava no meio do bandão.

                   Segundo ele, sentia raiva porque eu quase o impedi de realizar seu sonho. E a cada vez que ele me via, era uma chance a mais de eu fazer isso de novo.

                   Pensei comigo mesmo e expliquei a ele que essa não era minha intenção, que isso e mais aquilo, tentando esclarecer os eventos daqueles dias assombrados. Ele, da maneira calma de sempre, me falou

                   — Não sargento, eu entendi, desde aquele dia, que os senhores precisavam escolher um de nós e que ao levantar a mão me tornei um voluntário. Era só uma raiva besta. Mas, sabe o que eu mais gostava? Toda vez que eu via o senhor, eu lembrava do que estava fazendo ali e me sentia mais forte. Agradeço muito pelo senhor ter me deixado ficar, Sargento. Recruta a gente tem que apertar mesmo!

                   Nós rimos.

                   E o Cabo Praxes continua sendo um exemplo para mim até hoje. Sou muito grato por ter dividido com ele um pequeno pedaço de sua vida militar, e por perceber o quanto ele se desenvolvia cada dia mais. Na sua despedida não pude comparecer por estar em outra guarnição. Mesmo assim, espero que ele esteja bem onde quer que esteja.