• Home
  • /
  • Na Tropa
  • /
  • Histórias do serviço militar #01: Sd Praxes
instrutor grita com aluno militar durante formação

Histórias do serviço militar #01: Sd Praxes

                   Trabalhar com conscritos é sempre surpreendente. Vemos todo tipo de coisa quando o assunto são esses jovens. E, quando digo todo tipo de coisa, me refiro às situações mais inimagináveis que possam existir.

                   Eles testam a todo momento nossa capacidade de resolver os problemas impossíveis que eles criam. Problemas que, de quebra, acabam se tornando nossos.

                   Na Seleção Complementar, que é a fase final do recrutamento para o serviço militar obrigatório, ficamos o tempo todo esperando algo inusitado vir deles.

                   Um dia, para nossa própria surpresa, acabamos nos emboscando por um problema que nós mesmos quase criamos. Calma que eu vou explicar.




CONSCRITO DÁ MAIS TRABALHO QUE O TRABALHO QUE ELE DÁ

                   Ficamos o mês inteiro fazendo a melhor seleção possível dos nossos conscritos. Estávamos dando as últimas orientações para os mais aptos que já iriam iniciar o internato na semana seguinte.

                   Acreditando que o efetivo estava fechado, pagamos todos os bizus para que eles se preparassem realmente bem: o que levar, o que não levar, como se preparar e preparar sua família, entre outras coisas. Entretanto, quando estávamos próximo de liberá-los, notamos um pequeno erro: havia um jovem a mais ali.

Daí, vão dizer que é exagero, mas foi exatamente essa a cara que ele fez



UM INTRUSO NO MEIO DO NOSSO BANDÃO

                   Tínhamos feito uma excelente seleção naquele ano. Aqueles jovens estavam cento e dez por cento em condições de servir. Porém, havia um a mais no bandão. Sem haver nada que impedisse ou contraindicasse um deles, nos perguntamos, e agora?

                   Demos uma pausa nas orientações, nos reunimos e olhamos as fichas de novo. Uma por uma. Nada. Eram eles, já os tratávamos como futuros militares.

                   A questão é que havia um conscrito no meio dos nossos recrutas ouvindo recomendações para um internato que ele nem participaria. Um intruso! Onde não havia problema algum, agora tinha um inteiramente novo para resolver. Entendeu o que eu estava falando?

                   Restava uma última cartada. Mandamos para eles:

                   — Senhores, quem aqui está com dúvidas se realmente quer servir?

                   Nada.

                   — Bora, sempre tem um com dúvida, é só levantar o braço.

                   Ninguém mexeu sequer um músculo.

                   — Senhores, acho que não entenderam, um de vocês vai sair. Vai sair!

                   Ouvíamos o sangue correr nos olhos estatelados que nos encaravam mas nem um pio deles.

                   — Bora, quem está com dúvida? Sai agora. É simples.

                   Absolutamente nada. Mas, mesmo assim, alguém ia sair.

                   Perguntamos mais uma vez e novamente ninguém se voluntariou.

                   Contudo, nós conhecíamos o sistema. Éramos os donos do jogo. Tínhamos as ferramentas e sabíamos usá-las.

‘Jovem, por gentileza, preciso que você me ajude a terminar o meu trabalho nesta manhã.’, eu disse.



VOLUNTORIAMENTE, ALGUÉM IA TER QUE SAIR

                   Usamos um critério. Se ninguém queria sair, escolheríamos quem julgássemos que seria mais afetado pelo serviço militar. Critério justo. Era isso.

                   Voltamos às fichas. Um burburinho se instaurou. O clima ficou tenso entre eles. Quem seria escolhido? Cheiro de sanhaço tomou conta do ar. Nesse momento, um dos jovens levantou a mão e disse: 

                   — Mas, senhor, eu faço faculdade, mas vou abrir mão dela para servir.

                   Olhamos uns para os outros na mesma hora:

                   — É ele!

                   Estava feita a escolha. Achamos o intruso. Pronto.

                   Separamos sua ficha, e ele seria conduzido à rua sem dó nem piedade. Simplesmente porque não era para ele estar ali.

                   Fomos, aliás, somos, inquestionáveis. Quando algo é dito, ele é executado. Ponto final. Entretanto, para nossa surpresa, quando pedi que ele se levantasse para partir, ele se negou.

                   — Como assim, senhor? Por que EU tenho que sair? Eu vou ficar, senhor!

                   O conscrito intruso falou com tanta convicção que, não vou mentir, titubeamos.

                   — Jovem, é o seguinte, precisávamos de um, o senhor levantou a mão, não levantou? Pois, é! É você! Agora você vai embora!

Conscrito intruso aproveitando tranquilamente breve sua estadia no serviço militar obrigatório

                   Ele retrucou

                   — Mas, senhor, eu quero ficar, quero defender minha pátria, eu quero servir o Exército, senhor! Pelo amor de Deus me deixa ficar, senhor!

                   — Jovem… olha só.

                   Fui incisivo com ele, pela última vez.

                   — Você vai defender sua pátria fazendo seu curso superior de um jeito que nunca fez nada na vida. Vai defender seu país fazendo o que a sociedade espera de você, mas lá fora! Porque aqui dentro o senhor não vai ficar. Você vai embora. Vá para sua faculdade, faça seu curso, ajude sua família e devolva para eles o que te entregaram até aqui. Dúvidas, jovem?

                   Quem disse que ele ouviu?