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Missões, sanhaços e diversão: a melhor parte da vida militar – Parte I

DIA A DIA TÁ MEIO CHATO, NÉ?

                   O dia a dia no quartel é, por vezes, maçante. Têm as tarefas administrativas, que não são poucas, a manutenção das instalações que nunca acaba, as preocupações que julgamos desnecessárias, as peruações sem uma finalidade real para o adestramento da tropa.

                   E a mais maçante de todas elas: o serviço, que às vezes mais parece um castigo medieval do que uma missão de segurança das nossas instalações.

                   Daí, quando surge uma missão de verdade, ela se torna a oportunidade perfeita para sair da rotina.

                   Nessas missões, e fora das demandas repetitivas do quartel, que fazemos o que mais gostamos: aquilo que nos propomos quando ingressamos na carreira das armas.

Guerra da guerra: tiro, porrada e bomba!
Guerra do papel: só bomba…

                   São nelas que podemos deixar um pouco de lado o curioso fenômeno que nos deixa meio reclamões, para nos deixar preocupados com a segurança do camarada ao nosso lado. Onde passamos a nos tratar com respeito e admiração mútuos reais.

                   Nelas que percebemos o óbvio um pouco mais claramente: o problema do exército pode não estar no Exército em si, mas num contexto maior que a instituição. Já parou mesmo para pensar nisso?




— ATÉ QUE ENFIM UMA MISSÃO!
— MAS, VAI TER QUE TORAR NO TERRENO.
— AÍ FUDEU…

                   Dentro dos muros do quartel, apenas alguns espaços são comuns. Uma área para atividades físicas, o pátio de formaturas, certos corredores e alamedas, o portão das armas (a guarda jamais!). Eu entendo, e aceito, isso tranquilamente. Nada de novo no front.

                   Já numa missão, essa divisão invisível e, necessariamente, social, diminui bastante. Ou nem existe.

                   Muitas vezes o que existe é apenas um banheiro, duas pias, um chuveiro e sabe-se lá quantos vasos sanitários. Todo esse luxo para quase uma centena de homens.

                   Uma hora ou outra o militar mais antigo vai dividir a fila do banho com o Soldado mais moderno. Eles vão se encontrar nas únicas pias do terreno para fazer a barba, depois vão se sentar na mesa do rancho improvisado para comer e vão dormir na mesma área de camas durante dias. Não tem para onde fugir.

                   Daí, é interessante que você, como Comandante em qualquer nível, aja de acordo com aquilo que tanto cobra. Ou, no mínimo, seja um bom militar. Porque em momentos assim, vaidades não se sustentam.

Vocês vão dividir o calor, o frio, a chuva e alguns sanhaços. Sanhaços!

                   Talvez mesmo vários sanhaços. Se tiverem sorte. O que é muito bom! Isso pode ser algo bom e se tornar natural. Às vezes, até divertido depois.

                   Por outro, como tudo na vida coletiva, essa porra pode ser foda. No fim das contas, apenas aproveite. Quanto pior for a situação, melhor ela é de se contar.

Missão, sanhaço e diversão!
Missões, sanhaços e diversão! Cena do filme Falcão Negro em Perigo, de 2001.




UMA PATRULHA E MINHA BARRACA DEPOIS…

                   Um dia, voltando de uma patrulha durante uma missão, fui tirar um cochilo de trinta minutos, que de tão cansado pareceram três horas. Quando acordei, percebi um movimento estranho do lado de fora do meu pequeno espaço. Eram dois soldados se rindo todo. Segundo eles, para estar torando daquele jeito, eu só podia ter sido alvejado na porta da minha barraca.

                   Num calor daquele, alojados a quase dez dias num galpão de telhas metálicas bastante similar a um forno, só tinha como torar feito bicho. E lá estava eu: metade da carcaça para dentro, metade dela para fora. Usando o capacete de travesseiro, de coturno, com os cadarços afrouxados, sem camisa e completamente humilhado. Como tinha que ser.

                   A única coisa que me manteve com um mínimo de dignidade foi uma camiseta camuflada sobre os olhos para diminuir a claridade do meio da tarde. Fora isso, nem sei se existem registros meus naquela situação degradável.

                   Para tirar um simples cochilo desse, ou você desenvolve a resiliência necessária para ignorar o zaralho ininterrupto do lado de fora do seu espaço ‘particular’ ou sua vida vai ser bem complicada.

                   Do sertanejo ao rock, do funk à música gospel (somos um exército bem eclético, não?), de rodas de violão às partidas de truco, das brincadeiras à correria da missão, eram alguns dos empecilhos para um ambiente adequado à tora.

                   Como só ficamos um pouco mais de quinze dias naquela missão, essas situações não chegaram a virar um grande problema. Só um incômodo ou outro, nada fora do normal. Mas, caso ficássemos mais tempo, talvez fosse preciso colocar mais algumas regras de convivência. Ou mesmo amordaçar alguns companheiros. Eu votaria por isso.

O Exército é como uma grande casa.
Bora arrumar a própria cama, filhotinho?

                   Você pode ser de uma unidade puramente administrativa lá de Brasília, ou sei lá. Mas, se por algum motivo for parar numa unidade operacional do outro lado do cafundó, você será bem recebido (via de regra). Será alojado dentro das condições disponíveis e, certamente, poderá fazer novas amizades.

                   Seja antes de ir, mandando aquela mensagem esperta no grupo da turma, quase sempre acabará encontrando um conhecido, um camarada de turma ou um conhecido de um camarada de turma lá. Quando não, alguém de lá vai conhecer alguém que conhece alguém que você conhece. Numa missão não é diferente.

                   O Exército, para ser mais preciso, é uma casa do tamanho do Brasil.

                   Isto é, monumental. Gigantesco. Admirável.

                   E em cada lugar que se vá, cada terra ou quartel em que se pise, haverá hábitos e costumes diferentes. A cidade, o ritmo de vida, o trabalho, as relações profissionais entre superiores e subordinados, a comida, o clima, o trânsito, a cultura, tudo será muito diferente.

                   Nosso Brasil tem proporções continentais. Isso não é clichê nem propaganda. Não é marketing de venda em rede social. Essa porra é a realidade. Logo, cada tropa em cada lugar tem sua maneira de ser, suas preferências musicais, e sua forma particular de ‘operar’. O que é muito perceptível, e muito interessante de se observar.

                   Nessa missão, tivemos contato com tropas do Rio de Janeiro, de Brasília, de Minas Gerais, de São Paulo e de Goiás. Era gente pra caraca para trabalhar.

Militares iraquianos tiram uma selfie enquanto disparam artilharia durante um confronto contra militantes do Estado Islâmico, em Fallujah, Iraque, 2016.

                   ‘As missões no Rio, qual a ideia?’, ‘servir em São Paulo é bizu?’, ‘dá pra pedir o PQD em Minas?’, ‘Brasília é uma cidade boa?’, que quartel tem em Goiás?’

                   Fora o contato pessoal e conhecer militares de outros quartéis, entendo que é interessante incentivar os Cabos e Soldados a conversarem entre si também. Quais são os serviços, as missões, como são os campos, as atividades, como é o quartel, a cidade.

                   É uma excelente oportunidade para se ter uma visão mais ampla do NOSSO Exército Brasileiro e do NOSSO Brasil.

                   É muito bom perceber o quanto nossos militares são desenrolados. Como nós, Soldados Brasileiros, somos criativos e aguerridos. Seja o camarada do rancho, seja o que apoia o Encarregado de Material, seja o Recruta, o Soldado antigo ou o Cabo que desembocam na hora do sanhaço.

                   Com sinceridade, é gratificante perceber quando se está trabalhando com um pessoal profissional e, acima de tudo, cumpridor de missão. E, a partir disso, olhar de maneira diferente para nossos próprios subordinados.

                   O dia a dia no quartel é importante, faz parte do trabalho. Mas, são nas missões que relembramos do que realmente gostamos: ser militares.