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Com a palavra, os Recrutas do Exército Brasileiro

                   Quando tive a ideia desse blog, queria que todos contassem suas histórias.

                   Queria que os Praças, nossos Subtenentes e Sargentos, com toda sua experiência militar, profundos conhecedores de nossa Instituição, contassem suas histórias. Queria que os Cabos e Soldados, primeiros afetados por cada decisão tomada, contassem suas histórias. E queria muito tambpem que os Oficiais, nossos Comandantes e Chefes, com o fardo de serem os responsáveis por essas decisões, contassem suas histórias.

                   Eu queria juntar essas histórias distantes, mas jamais separadas – queria juntar esses tres mundos de alguma forma.

                   Um dia, olhei para os Soldados. Pensei: se os Soldados pudessem contar suas histórias, o que diriam? E se os Recrutas contassem suas histórias?

                   Para alguns, talvez isso soe como uma ideia absurda. Ousada, eu diria. Ousada demais, poderiam dizer. O interessante nisso é que o espanto vem somente da possibilidade de dar-lhes voz. Não há o que temer.

                   Talvez dissessem coisas que muito provavelmente não gostaríamos de ouvir, concordo. Ou talvez evidenciassem coisas às quais ainda não tenhamos pensado ou percebido. Quem sabe? Ou, quem sabe, mostrem algo que nos surpreenda positivamente. Para saber, só passando a palavra.




“COM AFEIÇÃO OS IRMÃOS DE ARMAS E COM BONDADE OS SUBORDINADOS”

                   Por vezes, temos um olhar inferiorizado de nossos subordinados. Acredito que isso nos é ensinado. Com isso, nossos superiores acabam nos olhando da mesma forma. Entendo que se queremos uma Instituição melhor, de fat, preparada, temos que buscar essa melhora em nós mesmo antes de tudo. Daí a importância do exercício de ouvir, em consonância com nossos deveres.

                   É importante ouvir nossos subordinados, dar a palavra aos nossos jovens, sobretudo, aos Cabos e Soldados. É um clichê, mas são eles que ocuparão nossos lugares muito em breve. Levarão consigo os reflexos bons e os ruins aprendidos conosco na caserna, para onde quer que venham a ir.

                   Devemos ouvi-los porque é nossa obrigação tratá-los com dignidade e urbanidade, demonstrando bondade, justiça e educação. Sem deixar de lado o rigor, que não deve ser confundido com mau trato. Nem a bondade, que não deve ser confundida com fraqueza. Ressaltando a importância do exemplo pessoal, do desprendimento e do respeito ao próximo, como incentivo à prática de atitudes corretas por parte de cada um.

                   Conforme consta em nossos manuais (O Exército Brasileiro, 1ª edição, 2014), em nosso juramento, e conforme nós mesmos já sabemos. Não sabemos?

                   Nossos subordinados são um ótimo termômetro do Brasil. Porque não do Exército e de nossa sociedade. De onde eles vêm? Tiveram acesso a quê? O que faltou? Quais os referenciais deles? Por que não mostrar outros? E, a partir disso, quais os seus referenciais?

                   Se o Exército é do Brasil, é deles também. O que o Exército é para eles? E para nós? Que Exército nós queremos? Que Brasil, afinal, nós queremos?

                   São perguntas incômodas. Mas, que precisam ser feitas em algum momento. Se queremos um Exército profissional, precisamos confrontar o que está diante de nós.

                   Com isso em mente, dei a eles um papel e uma tarefa. “Senhores, escrevam”, disse a eles, “o tema é: o Exército e minha vida”.

                   Estas são suas palavras:


AMADURECIMENTO E AMOROSIDADE

                   “Estou no Exército porque sempre foi meu sonho e porque tive muitas perdas graves para minha vida, mas isso me fez entender que o quanto antes eu deveria amadurecer, pois dali para frente seria mais difícil. No momento, meu plano é fazer o melhor que posso para ter além de amadurecimento uma renda fixa para seguir minha vida. Orei bastante tempo para que isso acontecesse e confesso que já pensei em sair, mas não posso ser fraco porque tem pessoas que esperam mais de mim, quero poder ser exemplo. E mesmo que os senhores não gostem de amorosidade, eu peço que Jesus os abençoe a cada dia.”




MEU PAI, E MINHA MÃE

                   “Sou uma pessoa meio complicada. Gosto de concluir tudo que começo a fazer. Não sou uma pessoa fácil de lidar, guardo tudo que acontece comigo para mim mesmo. Não gosto de compartilhar muito minha vida com as pessoas. Não dou muito bem com meu pai, acho que ele também pensa assim porque nem vejo ele. Mas, como eu tenho pessoas legais em minha vida, isso nem faz falta. Já a minha mãe sempre esteve comigo. Nunca deixou a desejar. Só tenho a agradecer a Deus por isso.

                   Como de costume eu sempre sonhei em estar aqui. Estou me esforçando bastante para estar entre os melhores, fácil não está sendo. Tenho minhas dificuldades, mas isso é questão de tempo. Tudo aqui para mim é novo, não é o que eu imaginava, mas querência eu tenho e não vou deixar a desejar por mais difícil que seja. Como eu disse, não gosto de deixar pela metade o que eu estou fazendo. Com fé e muito esforço eu chego lá porque é isso que eu quero para minha vida.”




COMPROMISSO COM O CANGA

                   “Antes de vir para o internato eu não tinha compromisso com horário. Era desatento com certas coisas, não me preocupava em fazer nem uma obrigação na hora. Sempre deixava tudo para depois e também não tinha organização com nada. Não tinha hábito de zelar com tudo e tinha zelo com apenas algumas coisas.

                   Após me apresentar ao Exército pela primeira vez observei que era uma corporação muito rigorosa. Desde o início do internato tive que mudar muitos dos meus comportamentos. Como, por exemplo, organização, compromisso com horário, importância dos exercícios físicos para o dia a dia. Lição de vida que marcará. Aqui no Batalhão estou aprendendo e conhecendo com os tipos de pessoas que se acham melhor e se desfazem dos cangas do pelotão.

                   Sobre minha opinião, acho que se todo jovem passasse por esse aprendizado, sobre essa hierarquia, acho que o país seria bem diferente. As pessoas iriam se respeitar e se colocar no lugar do próximo. E estou muito satisfeito em poder mudar meu ponto de vista de pensar e agir.”