O bizu é ser ruim

                   Era início de semana, dia de formatura geral no quartel.

                   Eu estava na companhia de recrutas naquele ano. Tínhamos passado todo mês de fevereiro fazendo a melhor seleção possível dos conscritos. Agora era hora de iniciar o verdadeiro trabalho.

                   Éramos uma equipe muito boa. Na falta de um Capitão, um Tenente comandava a Companhia. Tínhamos confiança, respeito e consideração uns pelos outros e uma boa liberdade para trabalhar. Poucas coisas dariam errado conosco. Exceto por uma única engrenagem que não girava.

                   Enquanto os Oficiais acertavam os detalhes das próximas atividades, nós, Sargentos, colocávamos os pelotões em forma verificando as faltas. A finalidade da formatura seria alguma coisa muito importante que poderíamos resolver rapidamente de outra forma. Porém, aproveitaríamos melhor nosso tempo mantendo nossos padrões de ordem unida. Enfim.

                   Estávamos todos no pátio da Companhia. Todos, todo mundo. Exceto ele. Ele ninguém sabia onde estava. Pouco mais de um ano no quartel e isso não era novidade. Uma breve olhada no alojamento e lá estava ele mais uma vez, nosso Snorlax mutante, fazendo calmamente sua alvorada após início do expediente.

Exército Brasileiro em Intervenção Federal – somos bons, senhores!



“MELHOR QUE NÃO SER BOM EM NADA, É SER RUIM EM TUDO”

                   Quando esse bicho chegou no quartel transferido, um colega fez o alerta:
— “Rapaziada, o Snorlax é um camarada complicado… onde estávamos servindo chegou ao ponto de ninguém mais no quartel falar com ele”.

                   Ao que respondemos:
— “Relaxa, irmão, aqui ele está trabalhando bem, pode ser que tenha mudado…”

                   E era mesmo. Ele tirava seu serviço, dividia as missões conosco, colaborava normalmente. Soubemos por alto que estava baixado por alguma coisa na coluna, mas estava bem, tratando e aparentemente se recuperando.

                   Contudo, isso mudou. Com o passar dos dias e o aumento das atividades, problemas de saúde começaram a aparecer. No início, foi parando de pegar umas missões aqui, umas instruções práticas ali… Como não podia ficar muito tempo em pé, não ia às formaturas nem fazia TFM. Parou de pegar algumas instruções teóricas e junto a isso outras tarefas administrativas que, segundo ele, exigiam certo esforço físico.

                   Até que definitivamente parou de fazer tudo e de quebra parou de tirar serviço. Por fim, passou a se atrasar frequentemente e a não entrar mais em forma.

                   A situação se tornava cada vez mais estressante e completamente desnecessária. Quando ele entrava num local a sensação de incômodo generalizada era instantânea. Todos se entreolhavam, as conversas morriam e o clima azedava. Nosso ambiente salutar de trabalho estava se tornando péssimo. Era muito complicado abordá-lo de qualquer maneira porque ele sempre tinha dezenas de justificativas e outras centenas de desculpas na manga para cada atitude errada que tomava. Era sempre o injustiçado da vez.

                   Na minha cabeça, eu só pensava: como um militar, concursado, relativamente antigo, cheio de barba na cara, dono da própria vida, fazendo um trabalho até então muito tranquilo, numa equipe que desembocava em qualquer coisa, consegue ser tão ruim?

                   Nessa altura, já estávamos adotando a política do ‘deixa que eu deixo’, e alimentando ainda mais aquele Snorlax. Era uma situação muito merda, e ninguém sabia mais o que fazer.

Pracinhas da FEB – Somos bons, senhores, não o contrário!



“SER BOM EM NÃO SER BOM EM NADA”

                   Todo mundo conhece o enredo: um militar que desempenha mal suas funções num lugar acaba sendo jogado em outro. Até que alguém lá se estresse, se canse e passe a bola, reiniciando o ciclo mais uma vez. No fim das contas, o mal militar fica num canto qualquer enquanto um bucha é prejudicado em função dele.

                   Servindo em outro quartel, me peguei conversando exatamente sobre isso outro dia. Era um antigão que começou a colocar diversos empecilhos desnecessários para trocas de serviço entre os Cabos e Soldados da Companhia.

                   A situação chegou ao limites quando um print no qual ele dizia que não faria mais trocas de serviço, que vida de Soldado era isso aí mesmo, entre xingamentos e esculachos, misteriosamente apareceu. O Comandante da Companhia ficou puto da vida. E com razão. Pois o motivo das trocas eram missão ou necessidade mesmo. Afinal, quem não quer trocar de serviço quando precisa?

                   Isso num contexto em que nossos Cabos e Soldados eram muito profissionais e o militar em questão deixava a desejar de várias maneiras, dando furos em escalas e documentações, sumindo sem deixar destino, terceirizando suas atribuições, etc.

                   A primeira solução sugerida, adivinhem, foi a de mandar o dito cujo para a seção. O que foi sabiamente ponderado pelo nosso Encarregado de Material da época, assessorando o Comandante de Companhia justamente no sentido de não repassar um problema nosso para outro bucha.

                   A ideia era trazer novamente para a Companhia no lugar do antigão um maluco muito bem visto por todos ali. E o motivo era simples: nas palavras de um Soldado, “ele não cagava”. Por coincidência, no mesmo dia dividimos uma mesa durante o almoço.

                   Como nosso quartel fazia bastante missões fora, ele nos alertava da importância de buscar sempre manter boas relações nos apoios que recebíamos porque o esforço para se conseguir esses apoios era enorme. Exigiam ligações atrás de ligações, contatos, documentação a rodo, trocas de favores, envio de recursos e outras infinidades de burocracias e acertos.

                   O maluco, que parecia meio maluco mesmo, se preocupava. Ou seje, ele desempenhava muito bem suas funções. Resumindo, ele trabalhava!

                   Agora, consegue imaginar o antigão nessa função? Eu só consigo imaginar pouca vontade de deixar a tropa (aqueles Soldados com os quais ele não se importava, e mais todos os outros) na boa em algum lugar longe de casa. Sem se dar ao trabalho de pensar no como nem no onde, só fazendo o mínimo do mínimo e batendo gaivotas burocráticas. Eu é que não ia querer. Na Companhia o estrago era menor. E estava no nosso controle.

A melhor solução foi assumir nossa responsabilidade, resolver a bronca e corrigir o rumo do antigão.

                   Ele passou a ser mais cobrado naquilo que era esperado dele de uma maneira muito profissional, característica dos nossos Comandante de Companhia e Encarregado de Material, na qual naturalmente nos espelhamos.

                   Outras demandas que estavam desalinhadas também foram levadas já com algumas sugestões de solução prontas para facilitar o processo e fazer as coisas fluírem melhor na Companhia. Com o tempo as coisas melhoraram em algum sentido. O antigão não mudaria sua dinâmica de trabalho completamente depois de anos trabalhando daquela maneira. Cabia a todos nós continuar fazendo nossa parte, cobrando um retorno e trabalhando por um clima salutar de trabalho na mesma medida.

DOPaz – Somos muito bons!



“O BIZU MESMO É SER RUIM!”

                   Já para nosso Snorlax mutante, quando as coisas começaram a sair demais do controle, a solução foi a do pacote previsto na cartilha. O problema foi jogado pra cima. Semanas depois ele foi tirado da Companhia. Tínhamos um corpo a menos para dividir as missões assim como um a menos para arrumar problemas. A conta tinha fechado no positivo e as coisas fluiriam melhor. Pelo menos pra gente.

                   Um mês depois, nosso Snorlax foi designado para uma missão felpuda e das mais peruadas do quartel. Uma missão de três meses fora, totalmente solto e cumprindo meio expediente. O paraíso na terra na vida de qualquer um.

                   Mas, adivinhem. Não demorou muito para ouvirmos reclamações a respeito de atrasos, faltas, más condutas, erros, etc. Era de se esperar, mas aquilo ainda foi uma surpresa. ‘Como é que ele vai para uma missão felpuda dessa, faz merda atrás de merda e ainda sai ileso?’, nos perguntávamos indignados.

                   Surpreendentemente ou não a história evoluiu mais, e para pior. O resumo da ópera é que ninguém queria trabalhar com ele em lugar nenhum. Depois da missão ele retornou para a Companhia como furriel. Os mesmos problemas de sempre voltaram. Então ele baixou definitivamente.

                   Por recomendação médica de um aspirante recém chegado. E, com o aval do Comandante, ele convalescia em casa. De lá postava stories rodando de moto por cidades próximas a sua, malhando, jogando, saindo, fazendo as mesmas coisas do início da história dele no quartel.

                   Até onde sei, suas condutas não deram em muita coisa além de chamadas de atenção, as quais ele respondia com mil e uma justificativas e problemas. O sentimento era de que não valia a pena ser um cara bom ali. Talvez fosse até a pior coisa que se podia ser.

                   Da Companhia mais imbuída na missão, a história que ficou marcada foi a do cara que não queria nada com nada. A sensação que dava era de que todo esforço coletivo tinha sido abafado pela sombra inerte de um único militar.

Batalha dos Guararapes – Nós somos bons no sanhaço (e quando estamos olhamos para a mesma direção)!



“CARA BOM AQUI SÓ SE FODE…”

                   Quando mandaram nosso Snorlax mutante para aquela missão bizurada não foi com a intenção de resolver um problema, mas sim de afastá-lo do convívio no quartel. Entretanto, à custa de um bom militar. Um Sargento temporário no seu último ano que havia sido designado para esta missão meses antes em boletim e tudo.

                   Com isso, geramos uma série de medidas administrativas para efetivar essa mudança e uma série de outras medidas decorrentes desta para corrigir as panes geradas num efeito dominó, além de frustrarmos planos já feitos de um retorno a vida civil, adequado e muito merecido.

                   Ao escolhermos a solução mais fácil, acabamos empurrando um problema com a barriga. Para resolver uma situação pontual, tomamos a decisão de mudar outras decisões prejudicando quem não tinha nada a ver com a história.

                   Qual solução poderia ter sido mais inteligente? Impor limites disciplinares para as condutas erradas do Snorlax desde o início? Oferecer ajuda de maneira mais proativa com recursos entre saúde e assistência social? Chamar a responsabilidade numa conversa franca sobre seus problemas e comportamento? Talvez. Não sei.

                   Pouco ou muito pouco, quase nada, foi feito nesse sentido na época. Ainda assim, é difícil dizer quais daquelas possibilidades alguém teria bancado. As poucas que tínhamos na Companhia não foram suficientes. Afinal, nenhuma solução poderia ter sido tomada completamente debaixo para cima, muito menos de maneira individual nessa história.

                   Hoje essas duas histórias evidenciam muitas coisas de nossa cultura arcaica para mim. Primeiro, a questão não está em ser um bom ou mau militar, como normalmente olhamos o problema. No meu entendimento, cumprimos nossas missões até o ponto de nossas limitações e dificuldades, pessoais ou profissionais. Não é algo a ser crucificado ou julgado isoladamente. Afinal de contas ninguém é 100% ruim (eu acho) nem 100% bom (tenho certeza).

                   O centro da questão está muito antes do julgamento. Está na forma com a qual lidamos com nossas limitações e alimentamos, ou não, certos tipos de práticas. Está em como nosso ambiente favorece comportamentos inadequados e, por vezes, não desincentiva outros. Está em como militares, não só mais antigos, mas mais experientes, ponderam, assessoram e viabilizam soluções razoavelmente inteligentes, se colocando à disposição para corrigir e ajudar a resolver problemas que afetam o todo. Está, sobretudo, numa verdadeira valorização de nós mesmos, reajustando nosso foco não para nossas dificuldades, mas para o que temos de melhor a oferecer.

                   Há sempre muito ensinamento a ser tirado de situações como essas. Basta olharmos algumas vezes para o lado, outras vezes para baixo e de vez em quando para cima para percebermos que precisamos amadurecer bastante no sentido de conduzir de uma maneira mais profissional o recurso mais importante da Força Terrestre na tentativa de colaborar numa solução verdadeiramente válida. E tão importante quanto perceber isso hoje é lembrar disso amanhã quando nós, que somos mais modernos, formos os mais antigos.