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Missões, sanhaços e diversão: a melhor parte da vida militar – Parte II

VAMOS FALAR DO SANHAÇO…

Missões, sanhaços e diversão: a melhor parte da vida militar – Parte I

                   Somos Soldados do Exército Brasileiro. Reconhecidos por nossa qualidade e características singulares onde quer que passemos.

                   Entretanto, não é porque “somos Soldados”, “nos orgulhamos muito disso” e recebemos uma missão que é o suprassumo do sanhaço que precisamos nos lascar mais do que o necessário para cumpri-la.

Gen Santos Cruz foi comandante das forças da ONU no Haiti e no Congo, onde teve seu helicóptero alvejado por forças rebeldes.
Gen Santos Cruz foi comandante das forças da ONU no Haiti e no Congo, onde teve seu helicóptero alvejado por forças rebeldes.

                   Não somos pau para toda obra, nem severinos ou tampouco a mão de obra mais barata do Estado.

                   Por mais vezes do que eu gostaria de admitir, a ideia aparentou ser exatamente essa. Em vários desses momentos, chegamos à beira do amadorismo em relação ao tratamento e às condições em que as tropas são colocadas.

                   E eu não digo em relação ao sanhaço da missão — disso gostamos! —, mas ao aparente desdém com o bem-estar de quem está se lascando no terreno.



TEM COMO BOTAR MAIS UM SANHAÇO NO MEIO DESSE SANHAÇO AQUI, POR FAVOR?

Planejamento é importante, mas profissionalismo é essencial.

                   E o planejamento é algo que, na visão da tropa, costuma falhar miseravelmente. Ou pelo menos nos deixa com muitas dúvidas. Já que dela, independente das circunstâncias, é cobrado o mais alto grau de profissionalismo.

                   Quando realmente não há possibilidade de dar condições adequadas à tropa, nós entendemos. De verdade. Fazemos o que for preciso. E a missão será cumprida.

                   Porém, quando há condições de dar um melhor conforto e apoio à tropa, por que não?

Os caras exageram… nem estava tão sanhaço assim.

                   Sempre dá para buscar o algo a mais, exatamente como somos cobrados na ponta da linha. Isso não quer dizer fazer mais com menos. EU acredito que conseguimos ser muito melhores do que temos sido, em qualquer nível.

                   Isso inclui trabalhar de baixo para cima também. Fazer o que tem que ser feito dentro da nossa realidade, buscar o que tem que ser buscado para melhorar nossas condições, entregar o que tem que ser entregue do nosso trabalho, tudo com qualidade.

                   E para isso, é preciso buscar clareza nas SUAS missões, dentro da SUA alçada, para orientar os que estão ao alcance das NOSSAS asas, e melhor assessorar (solicitar, sugerir, buscar), com mais efetividade, nossos Comandantes e Chefes.

                   Isso, senhores, nada mais é que exercer liderança. Não é bonito, e dá muito trabalho.

                   Um detalhe no ambiente, um comportamento modificado, uma rotina bem ajustada, são coisas com as quais podemos dar os primeiros passos. Como carecemos muito de rotina e só trabalhamos por demanda, isso fica mais complicado.

                   Cada dia é uma guerra e cada guerra é totalmente diferente a cada dia. Por isso mesmo, antes de tudo, não se apaixone pelo problema.



CONVERSA PARA UM PRÓXIMO NÍVEL

                   Quando somos modernos, é comum não entendermos a importância dos regulamentos. Ou entender que eles não existem para serem usados somente de cima para baixo. Existe uma diferença. Ele é feito de cima para baixo, sim, mas para ser seguido por todos. Acredite.

                   Na cadeia de comando, o Soldado mais moderno é subordinado ao Cabo que é subordinado ao Sargento, que é ao Tenente. Até o mais antigo da Companhia, que é subordinado ao mais antigo do Batalhão, que é subordinado ao mais antigo da Brigada, e assim por diante.

                   Se alguém em algum desses níveis deixa de cumprir sua missão, quem estiver abaixo — em último grau, o Soldado — sofre na pele as consequências com a própria carcaça. Por mais que não saiba exatamente de onde vem o erro nem o porquê.

                   Para mim, foi quando compreendi a ideia do parágrafo 1º do artigo 4º do Regulamento Disciplinar do Exército, que passei a ver meu trabalho de outra maneira. Nossos regulamentos não dizem que “é dever do superior tratar os subordinados em geral, e os recrutas em particular, com interesse e bondade” por mero acaso ou formalidade ética. Há nisso uma sabedoria que não nos é claramente explicada.

                   Mas, isso é conversa para um outro momento.



ENFIM, DIVERSÃO!

                   Imagine ficar mais de quinze dias sem ver o cheiro da rua, como dizia minha mãe. Convivendo com quase duzentas cabeças, vinte e quatro horas por dia.

                   Mermão… é foda!

                   Eu, de uma forma muito particular, vibro com essa porra. Gosto de ficar fora de casa vivendo apenas com uma bolsa num pedaço velho de colchão dentro de um lugar apertado e sem condições (tsc, tsc, tsc…).

                   Evidentemente, como um Soldado, não como um masoquista, seu sacana!

Diversão! Também faz parte

                   Mas, se o cara não inventar algo para distrair a mente dele, acaba ficando estressado, carente e criando inimizades dentro e fora da missão. Consequentemente, sendo trolado no final.

                   Agora imagine você de pé num quarto de hora abençoado de quatro horas. Mais nada nem ninguém além de você, um canga e seus inseparáveis companheiros — o fuzil gelado, o colete verdão camuflado e o senhor capacete. Só há uma coisa a se fazer numa madrugada dessas: contar mentira!

                   É a hora de resgatar suas melhores e piores histórias, aumentar ligeiramente os fatos a seu favor e gerar um bom entretenimento. Nessas horas, a gente descobre os podres, as histórias tristes, as vitórias e as derrotas alheias com um apreço inigualável.

                   Ali, conhecemos de fato o militar ao nosso lado, a pessoa por trás da farda. Daí vem o respeito mútuo e um pouco mais de humanidade.

                   Fora esse, outro bizu-master é pilhar geral!

                   Quer eternizar um apelido? Lança ele no rádio e deixa a galera pegar a gaivota no ar. De preferência, que ninguém descubra de onde ele saiu. Já era. Quando esse camarada começar a ser designado pelo apelido dele na própria rede-rádio, é o ponto certo.

                   Lembro que testávamos o rádio imitando o jeito de falar do Comandante do nosso batalhão. Cada hora um mandava uma coisa. Até o Tenente dar uma clicada e a gente imitar ele também. Depois que partíamos, o sanhaço fazia ele esquecer da pilha. A gente não.

                   Nossa diversão na missão, além de contar mentira, trolar geral no rádio, era pedir comida. As cidades nunca venderam tanto. Verdadeiro ataque de pragas. Chegamos a esperar cerca de duas horas para conseguir comer os lanches que pedimos.

                   E não adiantava ligar reclamando, eram mais de trinta sanduíches. O motoqueiro chegava, entregava alguns, voltava para buscar mais, entregava, voltava, entregava. Sei lá quantas levas.

                   Enquanto isso, era pilha, zoeira e história atrás de história. Às vezes o lanche dava ruim também. No outro dia, a febre do banheiro era certa. Como se não bastasse o calor e o banheiro escasso, quase todo mundo se cagando dava um charme a mais.

Exército Brasileiro realiza a cerimônia da troca da Bandeira Nacional, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)



E PARA QUÊ TANTO SANHAÇO?

                   No sanhaço que conhecemos nossos camaradas. É ele que aproxima um militar do outro. 

                   Na missão que vemos quem é imbuído ou quer só se destacar em cima dos outros, quem é moral de cueca e quem tem espírito de corpo, quem está só sem saco ou com a cabeça na merda, quem são nossos verdadeiros companheiros e, o mais importante, quem são os verdadeiros líderes.

                   Difícil qualificar alguém como líder. Mas, podemos dizer que aquele camarada que suja o pé no barro contigo, que se coloca na frente para brigar pelo grupo, que vai clicar geral quando precisar e abaixar a cabeça quando cagar o pau e levar uma clicada de tabela também, tem reflexos de líder.

                   Coloque um militar mais antigo para acompanhar um Grupo de Combate numa patrulha. Apenas acompanhar. Por um só dia. Sentir a chuva fininha, o sol de rachar, o foda-se numa manifestação.

                   Experimentando o que sua tropa está passando na ponta da linha. Para saber quem são eles de verdade. Ver se as coisas funcionam. Lembrar que o colete é desconfortável, que o fuzil é pesado, que o alojamento é pequeno, que está quente, que o descanso está pouco.

                   Ver também o brilho no olhar, a vontade de cumprir missão, a superação e o desenrolo nos imprevistos mais impensáveis. Depois, quem sabe, jogar um truco, ganhar uma partida e sair de lá com um apelido sincero também?

                   É na missão. No sanhaço. E, de tabela, na diversão, que percebemos o verdadeiro sentido de todo sacrifício do que é ser militar.