O MOMENTO CHEGOU
Depois de um longo período de muita dedicação e espera, é chegado o momento da partida. O tão aguardado dia da apresentação na Organização Militar de Corpo de Tropa. O conceito abstrato que imaginamos e tanto lemos no edital, vai se tornar real.
Adentraremos os, até então, impenetráveis muros dos quartéis designados e daremos início à uma nova etapa da nossa vida. Desta vez, no Período Básico do Curso de Formação de Sargentos do Exército Brasileiro.
Em dois anos, saíremos da condição de civis para sermos transformados em militares combatentes. Grandes e novos desafios nos aguardam, para aumentar os limites de tudo que até então achávamos que já estava pronto. Aprenderemos, aos poucos, no decorrer de uma carreira de muitos sacrifícios, que nada nunca estará.

Será necessário reaprender a determinação, amadurecer com paciência e exercitar uma compreensão quase cega, só para começar a semaninha puxada que se aproxima. O interesse da instituição será agora nosso guia e horizonte. Quanto antes entendermos isso, menos traumático será quando certos desígnios aparecerem. Como é natural na própria vida, não é mesmo?
Não fiquemos ansiosos. Parece natural arrumar a mala, terminar os preparativos, trabalhar os últimos dias, se despedir e partir. Não parece que ficaremos tanto tempo longe de casa, da rotina, da cidade de origem, da família e dos amigos… Mas, não continuaremos assim para sempre.
A ficha talvez caia quando entrarmos no ônibus ou quando finalmente colocarmos os pés no quartel. Na pior das hipóteses, quando passarmos o primeiro sanhaço. Que talvez nem seja tão sanhaço assim, mas que nos faça perceber onde finalmente estamos.
DE CIVIS A MILITARES COMBATENTES
Seremos do Exército Brasileiro, uma das maiores instituições do Brasil. Mesmo assim, nos manteremos tranquilos. Confiantes. E, sobretudo, entusiasmados, pois a carreira exigirá de nós uma elevada energia. É isso que nos dará garantia para lidar com a saudade e a distância.
Nossos comportamentos vão mudar. Assim como nossa visão de mundo. Agora estudamos a guerra, pensamos sobre ela e trabalhamos para estar prontos para ela. Nunca mais seremos os mesmos, ainda que continuemos iguais. Seremos moldados intensamente e isso se tornará normal para cada um nós. Faz parte da formação.
O rigor da profissão exige isso de nós. E cada um dos homens com os quais travaremos contato trabalhará com esse propósito em mente. Não é ainda pessoal, ainda que em alguns momentos seja, pois ninguém é perfeito. E, que já fique claro, nossa instituição também não é.
Mas ela pode ser. Só dependerá de nós. Particularmente, do pequeno círculo hierárquico em que pudermos colocar nossas asas. É importante que já entendamos isso. É muito importante, não se esqueçam.

UM SONHO QUE SE TORNA REALIDADE
A Escola de Sargentos das Armas (EsSA, porque já estou demasiado antigo, vocês sabem) sempre foi meu principal objetivo.
Mais ou menos nessa fase, eu visitava comunidades do Orkut (putz, muito antigo!). Numa delas, havia todo tipo de coisa por lá. Desde canções — que não ajudam muito para a prova — até debates sobre como era a rotina militar dentro dos quartéis, para os mais ansiosos.
Eu lia de tudo um pouco. Nessas comunidades, aprendi sobre todo o processo do concurso. Provas, teste, exames, etapas e procedimentos. Dados que constam no edital, mas que ali eram bastante esclarecidas. E muitas coisas sobre a carreira do Sargento. Eu tinha uns 16 ou 17 anos e já conseguia ver que a vida do praça é pau.
OBRIGADO, TIO CÃO
Numa dessas comunidades havia um ‘cara’ que safava muito o sanha dos concurseiros de plantão. Formado em Letras, ele ministrava um curso de redação via e-mail. Esse camarada era conhecido respeitosamente como Tio Cão. Nome bem sugestivo que indicava sua personalidade na rede.
Ele era uma espécie de Comandante da comunidade. Dava bizus tão bons que ajudavam até o mais perdido dos candidatos. E muitas broncas necessárias também, por conta das nossas visões estereotipadas e glamourizadas do que seria a vida de um militar.
Dava dicas sobre como deveríamos estudar, detalhes importantes dos exames médicos, aspectos importantes da etapa intelectual e bizus de treinos para o exame de aptidão física. Ele havia sido Segundo Sargento do Exército, para nossa surpresa também.
O fato é que estou indo para EsSA agora. A Escola que forma o Sargento combatente do Exército. Os bizus nos ajudou, é por isso que estou aqui. Vou ser Sargento agora! Obrigado, Tio Cão!
Este texto foi escrito alguns dias antes de eu partir para o quartel do período básico. Encontrei ele perdido por aqui e achei interessante compartilhar, pois ele conta um pouco mais da história do blog. E serve também para quem um dia partirá de casa todo bizonho para o difícil desafio de se formar Terceiro Cão do EB.


