Portão das Armas da ESA - Sargento liderança conquista-se pelo exemplo

Sejamos Sargentos… Parte I

O portão da ESA não é monumental. Ele é simples. E sua altura é modesta. Nele se destacam o símbolo de nossa formação — a quaderna de estrela prateada, azul-celeste e vermelha — acima de três grandes letras: E-S-A (Escola de Sargentos das Armas). Motivo de especial orgulho para quem passou por aquela Escola. Mas, nada de excepcional nele.

Quem atravessa este portão vê logo à frente uma não muito longa alameda ornamentada por árvores altas e canteiros muito bem cuidados que dão vista para um extenso pátio de formaturas. Famoso Pátio Sargento Max Wolf Filho, importante herói da Segunda Guerra Mundial e pracinha da Força Expedicionária Brasileira, que dá nome à Escola. Um exemplo de liderança, uma referência a ser seguida.

Mais adiante, no final da alameda, há o Pavilhão de Comando. Em sua sacada se lê:

“SARGENTO: ELO FUNDAMENTAL ENTRE O COMANDO E A TROPA”

Mensagem que parece indicar o que seria um Sargento. ‘Sargento’, assim mesmo, senhores, com ‘S’ maiúsculo.

 

Sgt Max Wolff Filho

Sgt Max Wolff Filho, rei das Patrulhas

Contudo, em corredores e outros espaços da Escola, das coisas que sempre escutei, pouquíssimas foram às vezes em que ouvi qualquer referência àquela frase. Normalmente, escutávamos coisas como ‘comecem a pensar como Sargentos!’, ‘o Soldado se espelha no Sargento!’. E a mais famosa de todas era um lembrete do motivo pelo qual estávamos ali. Seríamos Sargentos.

Ouvi coisas desse tipo desde o início da formação sem entender, porém, do que realmente se tratavam. O que era ser um Sargento? E por que éramos um elo? Éramos de fato esse tal elo? E que elo era esse que eu nunca vi? Após tanto ouvir — dezenas de vezes por dia, em chamadas de atenção de todos os tipos, no campo, no rancho, subindo cota, descendo rapel, rastejando, sentando e levantando, molhado, feliz, triste, sem saco, exausto, vibrando — passei a nem escutar mais.

O fim daquele escuro túnel de passagem obrigatória parecia não existir, ou era muito distante para alcançar. Minhas preocupações imediatas eram as provas, os testes físicos, os campos, a próxima refeição, o próximo descanso, o próximo licenciamento. O ritmo extremamente acelerado dos dias não permitia muito tempo para qualquer reflexão. A preocupação mais urgente da nossa formação era voltada para executar, fazer, continuar, realizar, manter.

 

“VOCÊS VÃO SER SARGENTOS, PORRA!”

Porém, somente falar repetidas e incansáveis vezes não contribui para o aprendizado. Muito além disso, não colabora em nada com a internalização dos importantes valores que necessitávamos. Mais, que o Exército precisava. Por vezes, aquelas frases pareciam mais verdadeiras mijadas revertidas de alguma frustração interna, alguma dor, algum desagrado.

O aluno, instruendo ou mesmo subordinado, precisa entender de maneira clara, melhor ainda, didática, onde é que ele entra no contexto daquela enorme história em que está sendo inserido. Porque, na maior parte do tempo, ele só quer chegar ao fim do dia vivo. Já que a maior parte do que aprendemos e ensinamos é transmitido sem que se diga sequer uma palavra. É através dos nossos comportamentos. Em outras palavras, é pelo exemplo.

O superior, seja ele um instrutor ou militar mais antigo, precisar mostrar: participar da construção daquela nova identidade, junto. Precisa viver: aquilo que ele está ensinando, antes de qualquer coisa, deve estar profundamente internalizado nele. Muito além disso: precisa Ser. E ser vai muito além do parecer. Pois, não é exatamente disso que se trata a liderança?

É preciso dar uma noção razoável dos porquês, das finalidades, do objetivo final da missão. A missão é formar sargentos (assim, com letra minúscula)? Não. As letras são frias, o papel aceita tudo. É só publicar, e se der ruim, torne sem efeito. Merecemos muito mais do que isso. É necessário transmitir uma espécie de consciência situacional histórica, a qual pode ser compreendida como a transferência de um bastão que simboliza os valores mais caros que nós, Sargentos, carregamos em silêncio.

 

Sgt Marco Antônio, Assombroso

Merecemos algo que não pode ser comprado. Precisamos Ser — enquanto verbo — a chama orgulhosa do nosso próprio legado. Nossos símbolos precisam ser primeiro os nossos valores próprios: nossa liderança característica, nossa experiência e conhecimento técnico inquestionáveis, marcados por uma conduta irrepreensível. Depois disso podemos pensar em outras coisas. A bem da verdade, o que menos precisamos nesse momento é de um sabre.

E quem sabe um dia talvez consigamos levantar nossos olhos e nos tratar de Sargentos para futuros Sargentos. Eis um tratamento digno para nossa tamanha responsabilidade:

— “Sargento, você não é Aluno, porra!”

Essa consciência situacional, é algo que sempre me esforcei para que Cabos e Soldados entendessem o contexto das atividades que participássemos. Vai muito além situar alguém em missões confusas e não muito claras. É importante pela dinâmica cada vez mais acelerada e complexa do mundo.

Mas, contudo, todavia, entretanto, da forma como aprendi o que era (pela boa vontade de um militar mais esclarecido), para nosso Exército isso não parece ter muito proveito para o Sargento. Como dissemos: ‘sá porra é rolha!’

Para o Exército, devemos ser eminentemente (ou completamente) práticos. Executantes perfeitos. A maneira mais arcaica de se pensar a função do Sargento em qualquer cenário. Mas, isso só na teoria. Porque no dia a dia, na tropa, na seção, nas missões, no EB do B, somos cobrados indireta, e cada vez mais diretamente, de todas as maneiras possíveis, sobre a importância de se compreender o todo.

 

QUAL O NOSSO LEGADO?

Por um lado, estamos presos aos maus vícios arraigados na nossa cultura enquanto, de outro, somos arrastados para as necessidades que o mundo real cobra: Sargentos cada vez mais demandados em todos os âmbitos da instituição. Sargentos e Subtenentes assumindo responsabilidades por vezes fora de suas atribuições funcionais comumente (dentro das linhas do papel frio), sem ter seu protagonismo e seu mérito reconhecidos.

Com isso, a tropa perde muito, o Soldado perde muito, o próprio Exército e, em última análise, a sociedade acaba perdendo mais ainda. Ou somos dissociados do resto do Brasil?

Nós seríamos Sargentos. Sargentos! No mínimo, futuramente, ocuparíamos o lugar daqueles militares que tanto nos importunavam: ensinaríamos, mostraríamos, cobraríamos, formaríamos. Passaríamos nosso trôpego legado a frente. Assumiríamos exatamente o papel deles, a função deles. Por que demorei tanto a entender isso? Talvez porque tivesse isolado nesse caminho. Mas, agora não.

De fato, aprendi muito mais quando, mesmo precariamente, havia uma preocupação genuína de se passar o que havia de mais caro para frente, para as próximas gerações. Assim como nas lutas, em que o destino final do faixa branca é ser um faixa preta, um artista marcial. Para nós, um Sargento. Antes de tudo, um verdadeiro Soldado.

 

Curso de Infantaria da ESA.png

O lugar onde assistimos durante quase um ano a exemplos de liderança e de sacrifícios de grandes homens

Foi assim nas conversas com um Sargento que inspirava a todos com sua liderança. Foi assim no Curso de Infantaria com um Capitão que nos mostrou que Ser é melhor que parecer, cursos não querem dizer nada. Foi assim no Básico com nosso excelente Instrutor Chefe que nos mostrou que a derrota te forja homem. Foi assim no simples pernoite de um Sargento altamente experiente que nos mostrou a verdadeira importância do serviço. Foi assim em raríssimos outros momentos os quais faço questão de levar sempre comigo como referência. Como exemplos.

É nesse caminho que se constrói a verdadeira sensação de pertencimento. Basicamente, um dos grandes motivos que faz um jovem querer se lançar numa vida de sacrifícios abdicando de sua vida para servir às Forças Armadas, ao seu País. Pertencer a algo maior que ele mesmo, mas que o reconheça na mesma medida de seu sacrifício. Não é isso que mais nos incomoda? E quam sabe um dia, em algum momento da formação, possamos falar sem ressalvas:

— “Aluno, nós somos Sargentos, porra!”