Não está nada bem

Posturado no incêndio – parte II

MANTER A POSTURA É O QUE IMPORTA

                   Veja também a parte I deste texto: Posturado no incêndio – parte I

                   No dia da partida, mais uma surpresa: no embarque descobrimos que outras OM também iriam conosco. Todo o acerto que tínhamos feito foi pro barro. Imprevistos podem acontecer, mas claramente estávamos planejando falhar. Posturados no meio do incêndio…

                   E lá fomos nós. Mais uma vez. Não havia viaturas o suficiente para a quantidade de material que todos levavam. Tivemos que abrir mão de parte do material pessoal e militar, dividindo o restante nos ônibus para desocupar espaço para as tralhas mais pesadas nos poucos caminhões. Uma hora ou outra alguma coisa tinha que dar certo. Focamos na missão, cerramos juntos e organizamos o zaralho.

“Eu estou bem com os eventos que estão ocorrendo atualmente…”

                   Não satisfeitos, fomos embarcar um pessoal de uma terceira leva, a qual ― surprise, motherfucker ― também não tínhamos o menor conhecimento. Resultado óbvio: não havia espaço sobrando para o material deles também. Narizes se torceram e semblantes se fecharam, com toda razão.

                   Um dos antigões da terceira leva chamou um dos Sargentos à frente do embarque para, segundo ele, “trocar uma ideia ali depois”. Forma cordial de avisar que receberíamos uma mijada por termos embarcado nosso material do jeito “errado”. Paciência. Mas agora sim, depois dessa orientação precisa e desnecessária, tudo ficaria em perfeitas condições para cumprirmos bem a missão.


PLANEJAMENTO DE UM LADO, EXECUÇÃO DE OUTRO…

                   No fim das contas, fizemos o melhor possível, mesmo com todo desacerto. Assessoramentos foram feitos, dúvidas tiradas, problemas identificados e alternativas apresentadas, tudo com base nas tantas más experiências vivenciadas em anos anteriores. Tudo pensando no bom cumprimento da missão. Brigar por isso era errado?

                   Porém, quem planejou não estava lá para executar. Dificilmente estava. E, convenhamos, não precisa necessariamente estar. Mas que a vontade, a experiência prática, a boa vontade, o entusiasmo, chame do que quiser, de quem sempre esteve, seja levada em conta.

                   O que vemos no dia a dia é exatamente o contrário: recebemos total liberdade quando precisamos de mais apoio; e perdemos toda iniciativa quando mais precisamos dela. No fim, é nossa carcaça que sofre as consequências do trabalho mal feito em instâncias que não controlamos.

                   Embarque terminado, nos preparamos para, finalmente, partir. Subi no ônibus e me larguei na primeira poltrona desocupada que encontrei, rezando para pegar no sono.

                   Alguém foi chamado lá fora, e o pela saco não desceu sem antes passar trombando o rabo em todo mundo. Devidamente humilhado, fizemos o favor de deixar um lugar vago para ele em qualquer outro lugar que não no nosso ônibus. Nem sei como chegou no destino.

                   A última coisa que me lembro foi da viatura saindo pelo portão da guarda. Acordei horas depois, descansado como nunca e pronto para novos incêndios.


TRABALHO DEPOIS LAZER, NUNCA O CONTRÁRIO

                   Dada a ordem, descemos nossas tralhas. O desembarque foi uma verdadeira guerra. Ocupamos rapidamente o alojamento e demais instalações. Segundo informações levantadas e confirmadas in loco pela seção de inteligência do estado-menor competente, o rancho era bisurado naquele quartel. Apreciávamos isso.

                   Ansiosos, partimos para o almoço e nos acabamos de comer. Nunca tinha visto bolo e sorvete num mesmo quilômetro quadrado dentro de um quartel. Quiçá numa única linha de servir. Mais conhecido como petit gateau da guerra.

                   Terminadas as primeiras medidas administrativas, estaríamos liberados. Parece que as coisas estavam começando a entrar no eixo.

                   Quando finalmente consegui pisar no alojamento, todas as camas já estavam ocupadas. E uma lan house completa estava montada num dos cantos do grande espaço. “Por isso o desembarque foi um zaralho”, pensei. “Esses sacanas estavam se bizurando aqui”.

P Tora devidamente montado, agora posso descançar em berço esplêndido.

                   Peguei uma cama no beliche de cima com um colchão todo cagado num lugar ruim do cacete. “Tudo bem”, pensei, “o restante dos moleque estão bem instalados”. Era o que importava. Parei ali por alguns instantes para o refrigere mais elementar de uma missão: resenhar.

                   Como não havia mais atividades previstas naquele dia, fui cuidar do meu P Tora despreocupadamente. Decidi que leria um pouco antes de partir daquela para outra melhor. Dei uma coringada no celular e, quarenta minutos depois, ainda perdia tempo com coisa rolha. Voltei à vida, respondi algumas mensagens e comecei uma leitura leve.

                   Neste momento, fomos acionados.


AVISO IMPORTANTE: PATO, BOLA, MACACO

                   Ninguém nos avisou, mas havia um briefing da missão marcado para o início da tarde. As outras tropas sabiam. Nós, mais uma vez, não. Nós aprontamos no ‘hop’ e fomos.

                   Finalidade da reunião: avisos administrativos e ajuste de expectativas. Entendi que poderíamos ter chegado um dia depois e ido embora o quanto antes.

                   Era a mesma história de sempre: esperar. Não havia a menor conjuntura para sermos acionados. Se fôssemos empregados, nossa atuação tenderia a piorar o cenário. Ou seja, ninguém queria a gente lá.

Mas, estávamos. Sempre estaremos. Cumprindo a missão institucional da nossa Força com ventos favoráveis ou não. Quando o caos se instala, alguém precisa fazer o trabalho.

                   Toda aquela indefinição antes da partida fazia sentido agora. Aliás, explicava, mas não justificava.

                   Ficamos nove dias aguardando o nada acontecer. No ruim, coloquei leituras em dia, adiantei estudos e treinei. Eram meus refrigeres.

                   Nem para todos foi tão agradável. A maioria sofria por não estar em casa, por estarmos sendo empregados de festim numa missão, por isso e por mais aquilo. Essa dura lição eu já tinha aprendido.


A lan house que os safados montaram em menos de dez no alojamento…




“A PRIORIDADE AGORA É OUTRA PRIORIDADE, PESSOAL”

                   A missão ocorreu sem grandes alterações. E, então, o tão esperado dia da volta chegou. Mais uma vez, zaralho generalizado. O quadro horário não previa atividades essenciais para o retorno da tropa, o que atrasaria todo o resto.

                   Não era simplesmente carregar meia dúzia de coisas num caminhão. Precisávamos desmobilizar todo material levado, contando que a missão pudesse evoluir de N maneiras. Nosso emprego não estava bem amarrado. Levamos uma quantidade grande de material. Isso porque ainda deixamos parte dele para trás.

                   ― “Será que eles não se lembraram disso?”, pensei.

Pessoal, não está nada bem…

                   Mais uma vez, organizamos o zaralho. Ia dar certo. Com todas as OM envolvidas no ali, não tinha como dar errado. Só queríamos ir embora!

                   Quando achamos que estávamos vencendo a guerra, uma nova ordem chegou: entrar em forma.

                   ― “É u quê!? Como assim? Não estamos nos preparando para partir?!”, alguém questionou.

                   Como as ordens chegam atravessadas, cheias de ruídos nos canais nada limpos da cadeia de comando. E, como não somos aplicativos de celular que apenas executam suas tarefas conforme uma programação, é LÓGICO que surgiram dúvidas. Mas, a prioridade já não era mais a prioridade. Era qualquer outra que desconhecíamos.


POSTURADO NO MEIO DO INCÊNDIO

                   O Comandante queria falar com a tropa. Largamos tudo e entramos em forma só com a carcaça. A dignidade ficou para trás. “Tudo bem, Comandante quer falar, deve ser urgente”, pensei.

                   Ideias pipocavam: “vamos ser empregados?”, “alguém vai ficar?”, “não vamos mais embora hoje?”, “vai ter pizza na janta?”. Burburinhos entre nós aumentavam. Esperamos. Aguardamos. Mais uma vez. Com as palavras de alguém mais antigo, tudo ficaria bem.

                   O Comandante agradeceu o empenho, desejou bom retorno e partiu. Um antigão assumiu as frações e informou que parte do efetivo partiria primeiro. O restante depois. Não ficou muito claro quem nem quando. Não foi explicado o porquê. Apenas que precisávamos terminar o embarque.

                   Meu planejamento era dar o último chivunk da vida, finalizar tudo e aguardar a hora de ir para casa. Enquanto o pessoal voltava para terminar o embarque, fui com o Tenente tirar essa dúvida com um antigão.

                   Quando voltamos, não havia nem uma dezena trabalhando. Perguntei: “qual a ideia? cadê o pessoal?” Estavam todos resenhando na lan house. A ordem era que partíssemos o mais rápido possível.

                   Aquilo me irritou de uma maneira muito absurda. Minha reação foi tocar o terror em todo mundo. Entrei no alojamento e larguei:

                   — “Senhores, a ordem é partirmos na primeira leva. Se não desmontarem essa farofa aqui e finalizarem o embarque em dez minutos, seremos a última tropa a sair daqui amanhã.”

                   A missão, para nós como fração, acabou ali.

                   Falhamos.

“Tudo bem, as coisas vão ficar bem”
Não vão ficar não…

                   Eu me sentia revoltado e não sabia exatamente com o quê. Alguns estavam com raiva, outros frustrados, todos nós sem moral. Um soldado dos mais antigos se aproximou e disse, “pô, Sargento, foi mal. Voltamos para o alojamento, não sabíamos o que fazer e acabamos varando”.

                   Demorei semanas para digerir aquela situação. Entre achar que estava certo e entender os fatores que contribuíram para o ocorrido, até entender que a responsabilidade era totalmente minha.

                   A questão não era estar certo ou errado. Só na minha cabeça a prioridade tinha voltado a ser terminar o embarque e partir primeiro. Os Cabos e Soldados, o restante da fração, não sabiam.

                   No alto da minha razão e da minha arrogância, achei que deveriam adivinhar os próximos passos. Além de não exercer meu comando, perdi minha liderança.

                   Deixei de fazer meu trabalho quando parei de me preocupar. Quando parei de corrigir desvios e desacertos da missão. Quando não fiz cumprir o que devia ser feito e deixei de situar os militares que estavam sob minhas asas, conscientizando eles a cada momento.

                   E, na medida dos mais antigos que tanto critiquei, eu mesmo me tornei um posturado no incêndio.