ANO NOVO, MESMAS GUERRAS…
Era o início de mais um ano. Lá estávamos nós, eu e minha fração, renovados e com novos planos. Mais do que isso, estávamos prontos para cumprir missão.

No ano anterior, eu tinha virado bola participando de todas as atividades da minha Subunidade. TODAS, irmão! E tudo bem, entrei no Exército pra isso. Mas, algumas delas tornavam doloroso o que, por si só, já é oneroso o suficiente. Minha meta este ano era melhorar isso (ou despiorar). Pelo menos na ponta da linha, no que cabia a mim.
Porém, pelo cheiro do vento, uma nova missão se apresentava. E, para minha satisfação profissional, essa seria mais uma daquelas!
Mais uma vez, tudo um zaralho. A pouquíssimos dias da partida, muita coisa ainda estava sendo decidida nas cabeças pensantes. Para a tropa, praticamente nada estava certo a não ser o fato de que receberíamos uma missão. (Ah, então fechô, tô safo!)
E, à D-1, como em todas as missões no ano passado, estávamos feito loucos correndo atrás de todo material e da missão em si. Eu estava estressado antes mesmo de começar. Se minha meta fosse um barco, ela já tinha começado furada.
A ETERNA REINVENÇÃO DA RODA
Numa pausa breve em meio a correria enquanto chorávamos algumas pitangas, o Tenente voltou de uma reunião cabisbaixo e chutando pedrinhas.
― Qual foi, Tenente, fala pra gente que a gente resolve! ― um de nós brincou, tentando aliviar a tensão.
Ele comentou que nada tinha sido decidido. E que, apesar da indefinição, ninguém parecia muito preocupado. O horário de partida ainda seria batido, e a única coisa que sabíamos, mais ou menos, era o local da missão.
Reclamamos mais um pouco, pelos mesmos motivos de sempre, só para dar uma variada.
Não estávamos totalmente certos, admito. Nossa casa não estava bem arrumada para querermos falar mal da casa dos outros. Em todo caso, tínhamos uma indiscutível razão. Nosso trabalho dependia do trabalho das cabeças pensantes. Nós, a tropa, como executantes, as carcaças no terreno, dependíamos daquelas informações, das decisões que não tinham sido tomadas.

Quando o nível acima não funciona bem ― ou não se preocupa de forma genuína com o nível abaixo, sobretudo a ponta da linha ― trabalhar se torna uma batalha difícil e extremamente desgastante.
O resultado é um só: acabamos tendo que reinventar a roda. Todo. Santo. Dia. E isso não é privilégio só da tropa.
É algo generalizado, banalizado, sistemático. Em muitos níveis, aceito como normal. É algo cultural. Mas ― o óbvio sendo dito: ― não deveria ser.
O ELO MAIS FRACO
Inequivocamente, a tropa ― o elo mais fraco ― acaba sendo a principal e maior afetada. E nós sabemos muito bem o que acontece com quem erra do lado mais fraco da corrente.
Falávamos, mais uma vez, do problema recorrente de termos que mover montanhas para conseguir um palito. À custa de nossa crença na instituição, de nossa inegável vontade e de qualquer resquício de motivação.
Um de nós, com uma percepção mais ampla da situação (geralmente o mais crítico, tido em nosso meio como o mais reativo ― não aquele falador reclamão) falou o óbvio:
― Irmão, tamos trocando tiro com uma mão e pedindo munição com a outra. Se quiser comer então, fudeu, vai faltar braço!
Ele queria dizer que, inúmeras vezes, somos sobrecarregados porque cumprimos missões além de nossas atribuições. Ao invés de nos preocupar com nosso nível, algo trabalhoso por si só, absorvemos demandas do nível acima: providenciando apoio material, provendo apoio logístico, desenrolando medidas administrativas. Algumas vezes, até acertos na raia miúda com outras OM, como em tantas missões, fazemos.

A observação, recheada de desabafo, continuou:
― É pau, cara! Conta quantas cabeças tem no Estado-Maior, fora os Comandantes de Companhia. Agora me explica: como é que a gente tá batendo cabeça a milionésima vez pelas mesmas coisas aqui de novo!?
Outro camarada ponderou:
― Pô irmão, mas é foda… os caras tão cansados pô. Isso aí é natural… eu entendo também.
Ao que outro rebateu:
― Então quer dizer que o antigão cansado tem direito de cagar? Aí fudeu…
Pensei alto:
― Quer dizer que quando formos antigos a gente vai poder ficar cansado também? Então eu devo tá muito antigo!
UM PÉSSIMO CÍRCULO VICIOSO
A lógica parecia invertida.
Ao invés de, quanto mais antigo, maior capacidade de trabalho, mais experiência ― mais propriedade para orientar ― se adiantar aos problemas e, sobretudo, deixar a tropa nas melhores condições de cumprir missão. Não. Quanto mais antigo parecia significar mais respaldo para não fazer nem o mínimo. Quem dirá bem feito.
Aceitar essa lógica como normal, não é nem um tiro no pé, é um tiro no peito.
Dava a triste impressão de que, para quem planeja, quem executa era menos importante. Ou pior: que quem cumpria a missão não fazia muita diferença no processo.
Era frustrante. Para nós, tenho certeza. Mas, era frustrante para eles também, acredito. Claramente.
Primeiro, porque nós sabemos o que temos de fazer. E o que deixamos de fazer, nós também sabemos. Qualquer um com a parte afetiva minimamente desenvolvida não vive bem sabendo que não fez um bom trabalho. Não vive. Se acha que vive, melhor parar de se enganar.
Segundo, porque o input que eles recebem é mais pesado. O impacto é maior. Se para nós é difícil trabalhar assim, para eles deve ser muito pior. Afinal, lidar com o nível acima, que repete as mesmíssimas coisas, sabendo, lá no fundo de si mesmo, o prejuízo que isso causa… A não ser que já estejam num nível de indiferença acima do aceitável em qualquer relação profissional.
Pensemos um pouco.
Se o trabalho é onde passamos a maior parte da vida, como deve ser trabalhar por anos a fio com raiva, frustração e indiferença?
Por estarmos frustrados, trabalhamos mal.
Por trabalhar mal, ficamos frustrados.
E, por estarmos frustrados por trabalhar mal, ficamos com raiva, nos sentimos ainda mais frustrados e trabalhamos ainda mais mal.
É um círculo vicioso impiedoso e desgastante.
POSTURADO NUM INCÊNDIO
É preciso estar atento. Temos em nossas mãos uma responsabilidade gigantesca com a vida de outras pessoas. Ou melhor, de outros militares. Pessoas cujas relações são pautadas no espírito de corpo, na integridade, na responsabilidade e, não nos esqueçamos, na lealdade.
Passadas as lamentações, depois de um dia ensandecido correndo atrás de viaturas, documentações, motoristas, refeições ― sendo quase um quartel dentro de outro, um estado-menor! ― estávamos finalmente ‘terminando’.
Até que um dos antigos da reunião de ‘coordenação’ (entre muitas aspas) de mais cedo chegou querendo saber porque não tínhamos terminado até agora, nas palavras dele.
Ao tentar explicar que tivemos dificuldades ― porque não havíamos recebido ordens nem orientação alguma em tempo hábil, algo que ele não gostaria de ouvir, nem ouviria se disséssemos ― ele prontamente nos interrompeu.
Mesmo com o pessoal no sanhaço, apagando um incêndio atrás de outro, se matando no escuro para conseguir se organizar minimamente (coisa que nunca é vista), ele fez questão de parar nosso trabalho para uma ‘conversa’, em tom de orientação.
Recebemos, ali, uma mijada moral. Sem um pingo de ética.

Fiquei olhando aquilo completamente atônito. Incrédulo. Quem deveria estar por nossa conta, nos fornecendo todo apoio para cumprirmos a missão do batalhão, era justamente com quem menos deveríamos contar.
Era como se estivéssemos em realidades distintas.
Será que ele não percebia o quanto as coisas não funcionavam? Talvez não percebesse. Talvez nós estivéssemos vendo as coisas pela perspectiva errada. Ou talvez aquele fosse o melhor que ele pudesse fazer. Ou talvez nós é que estivéssemos errados. Sendo pessimistas demais, não fazendo nosso melhor.
Eram muitos talvez na minha cabeça, numa tentativa angustiada de entender qual era realmente a causa do problema.
O que mais me impressionava mesmo não era nem a enxurrada de problemas em si. Mas, a habilidade descarada de manter uma postura condescendente que tolerava com benevolência uma situação em que coisas muito além da nossa esfera de atribuição não funcionavam.
Era pior que o cachorrinho da charge que, por força de sua ingenuidade ou super otimismo, tenta se convencer de que tudo ficará bem, apesar da situação caótica e desesperadora ao seu redor.
Mas, nós não somos nem por um instante ingênuos, tampouco otimistas.
Ao invés de lidarmos com os problemas com integridade, hombridade, competência, só fazemos ignorá-los. Agindo posturadamente num incêndio como se tudo estivesse correndo bem. Enquanto apontamos, com desdém e arrogância, para quem menos tem responsabilidade pelo nosso despreparo cultural e institucionalizado.
Éramos nós a causa?
Se não, então quem era?
Eu queria saber.
Pra ver se conseguia resolver de alguma forma. E, quem sabe, conseguir cumprir minha meta de Ano Novo.



