Os momentos mais marcantes da formação militar

                   A vida do Aluno é marcada por muitos momentos. Alguns ruins, outros não muito bons. Mas, entre eles, há aqueles momentos curtos, porém significativos: verdadeiros marcos de transição na formação militar.

                   Na minha singela (e deveras antiga) perspectiva, há três deles que se destacam por serem oportunidades de colher os resultados iniciais dos próprios esforços.


“JÁ OUÇO OS TOQUES DE FORMATURA!”
— HEIN?!

                   Começando pelo fim: a formatura.

                   O momento mais esperado e distinto da nossa querida formação. Desde que decidimos nos tornar essa criatura incompreendida que é o ser militar. Antes mesmo de pisarmos no chão da Escola. A formatura de conclusão de curso é o momento em que tudo, teoricamente, termina.

                   Porém, até que se prove o contrário, essa tal formatura é só uma história inventada. Algo como uma fantasia, uma lenda, um mito (não, não trabalhamos com mitos, tampouco com figuras de nove dedos neste espaço). Uma luz no fim de um escuro e longo túnel. O destino que nunca chega. A esperança derradeira. A terra prometida. O caminho sem fim. O toque inaudível de formatura.

                   Esta é uma questão controversa. Pois os estrados das camas, assim como as portas dos armários — grandes oráculos dos Alunos — diziam ser real a promessa desesperada de que um dia tudo realmente termina. E mais: dizem que, neste dia, podemos finalmente voltar para casa. Até que partamos de vez para nossa futura Organização Militar (OM), sendo explodidos pelos confins do nosso continental Brasil.

                   É difícil, mas confiamos, ainda que cegamente, nas mensagens encravadas em madeira e ferro, passadas de geração em geração. Mesmo em meio à labuta diária da forja ininterrupta da formação, nós continuamos lá, acreditando na suposta inexorável marcha do tempo.

                   Porém, há um medo ainda maior do que o de não alcançar o dia da formatura. É o medo de, ao finalmente conseguir sair pelos portões, acabar atravessando um portal que nos leve de volta ao primeiro dia do Período Básico. Tamanha prova é colocada à nossa fé. Se isso fosse verdade, se um dia eu realmente tivesse que voltar para o primeiro dia, da primeira semana, do primeiro mês, do primeiro ano, da primeira fase… (quem é, vai saber). Ia dar não.

                   Imagina. Eu tendo que usar de novo o maldito do cotonete. Passando por todos os adoráveis campos, por todas as tranquilas formaturas, todas as tão fáceis provas. Todas aquelas malditas farofas de basicante. Tudo, eu disse: tudo de novo. Para só depois chegar novamente na Qualificação e repetir o processo. DE NOVO. TUDO. Mais uma vez!

                   Mermão! Sério, dava pra mim não….

Para de sangrar, Aluno, a formatura tá logo ali…

                   Não teria como. A vida de Aluno é um pesadelo ruim demais. Mas a ideia é simples: tem que ser assim. Pois é exatamente as coisas serem dessa mesmíssima maneira que faz com que a saída pelos portões seja algo que só mesmo vivenciando para entender. Vale cada passo seguido em frente para viver aquele momento que, por si só, já é uma recompensa enorme.

É inacreditável. É insano. Um alívio imenso. Difícil de ser descrevido com palavras. Só posso dizer que vale a pena todo sacrifício — e muito mais.



“PARABÉNS, ALUNO, VOCÊ ACABA DE SER ESCOLHIDO”

                   Talvez o momento mais importante seja a escolha da arma, quadro ou serviço. A escolha de sua qualificação. Isso define se você será da área combatente, sendo de uma das armas-base: Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia ou Comunicações; ou se você será do Quadro de Material Bélico, como mecânico de armamentos, por exemplo; ou mesmo se será da Aviação, do Serviço de Intendência ou Topografia. Fato é: o Exército tem lugar para todo mundo.

                   E, por mais absurdo que isto possa parecer, tem lugar até para os artistas. (Ah, esses artistas! Tsc, tsc, tsc…)

                   Cada uma das qualificações tem um perfil profissiográfico característico. Também uma certa demanda de trabalho, uma exigência específica, uma gama maior ou menor de locais para servir, possibilidades — ou não — de exercer certas funções ou executar determinados tipos de missões, etc.

                   Mas nada é amarrado. Como já disse, o Exército é grande de uma maneira quase colossal. Tem espaço e possibilidades para todos. Mas, de fato, “a escolha da arma é pior que um casamento”, como os muito mais antigos costumam dizer. Porque, no casamento, a gente ainda pode se separar. Da escolha da arma, nunca mais.

                   Alguns Alunos são abraçados por algumas qualificações. A luta é feroz.

                   Como tudo no EB do B, a escolha é feita a partir de uma classificação por mérito, exceto para saúde e música, cujos Alunos já entram sabendo para onde vão. É engraçado porque existem muitas rixas entre as qualificações, então a zoeira é garantida pelo resto da carreira. E é emocionante porque não há vagas suficientes para todos. Alguns vão chorar. Outros, sorrir. Outros, nem um, nem outro. Vão só se adaptar mesmo.

                   No fim das contas, ninguém fica sem pai (nem mãe). Alguém sempre é escolhido. E acaba sendo compulsado para a Cavalaria — digo, para outra arma, quadro ou serviço. Por isso, o maior bizu de todos os tempos, desde a invenção do fogo, é e sempre será se dedicar ao papiro e aos treinos. Até porque somos militares. Somos, em tese, naturalmente dedicados, empenhados, etcétera e tal. Façam jus a isso.

                   É a famosa troca não-burra: aqueles cinco minutos finais de sacrifício no papiro ou aquele gaszinho a mais para empurrar o chão mais uma vez, por uma vida inteira de realização — ou sofrimento.

                   A escolha da arma é desses momentos tensos que ou nos enchem de orgulho, ou nos trazem alguma maturidade para a vida. No fim das contas, todos terão ao menos mais uma oportunidade de achar um lugar para chamar de seu na instituição, ainda que não na qualificação almejada.


“SÓ ACABA QUANDO TERMINA, ALUNO”
(e só termina daqui a trinta e cinco anos!)

Agora, com toda certeza, o momento mais vibrante de todos é a escolha da OM. Aquela onde você começará a exercer suas funções, colocando em prática os conhecimentos adquiridos e os aprendizados conquistados. O seu destino seguinte na vida, depois de sair da Fábrica.

                   É uma tradição nas Escolas militares. O fruto mais sólido do desempenho durante a formação. Começa na primeira instrução, ainda nas semanas iniciais, nos primeiros passos da jornada, nas primeiras cobranças e avaliações. E só termina quando você desce do tablado, lá na Qualificação, nos últimos meses de curso, sabendo, de uma vez por todas, onde será sua próxima casa — ou seu lar — independente de onde seja.

                   O momento é tão marcante que todos os instrutores assistem. É tão significativo que até mesmo outros militares da Escola costumam ir. É o marco inicial na carreira militar dos Alunos, com os quais, em breve, estarão ombreando em diversas missões pelo Brasil.

                   Acontece todos os anos. Sem falhar. Aconteceu com eles, vai acontecer no próximo ano e daqui a dezenas de anos também. Uma verdadeira tradição que, de certa maneira, numa perspectiva mais ampla, confirma nosso vínculo com a nação, com o território, e deixa escancarado nosso compromisso com o Brasil. Acima de tudo, sem qualquer embuste.

“Você escolheu essa vida porque quis! Ninguém te convidou!” Eu sempre quis dizer isso.

                   Enfim, a escolha de OM é um alívio. No auditório, enquanto esperava minha vez, pude ver o quanto as três divisas estavam perto e o quanto isso era enormemente gratificante, à medida que também me preocupava. Pois, no próximo ano, uma parte importante da vida de muitos jovens estaria sob minha responsabilidade. E ainda mais preocupante, sob minha influência. Naquele momento, eu estava deixando de ser apenas Aluno — ainda que não tivesse plena consciência disso — e começava a me tornar Sargento. Era um sinal de que a ficha não estava só caindo. Estava desabando.

                   Quer dizer: o fim tão esperado estava próximo, e já era possível ver com um pouco mais de intensidade alguma luz no fim daquele acentuado túnel.

                   Em breve, seríamos Sargentos.

                   Seríamos a tecnologia de ponta, os meios mais modernos do Exército Brasileiro, o sangue novo. O novos discípulos de Max Wolf. Lobinhos prontos para viver mais momentos marcantes — porém, agora, por nossa própria carta e total responsabilidade.