Fim das férias e a Síndrome do Licenciamento

                   Fiquei impressionado com a longa duração da última semana. E, contraditoriamente, com a rápida passagem dos mais de trinta dias de férias que passaram. É a Síndrome do Licenciamento.

                   Quando, por mais que você descanse, por mais dias de férias que se tenha, por mais que você esqueça completamente o quartel e a vida militar:

                   — Suas férias, a partir de agora, Aluno, serão apenas grandes licenciamentos!

                   Tenha misericórdia.

É a Síndrome do Licenciamento…

                   Faltam pouco mais de dois dias para nossa apresentação na EsSA (da versão espartana, com dois ‘ésses’). Apesar disso, minha querida Escola já está com uma barraca montada na minha cabeça há dias.

                   Imagino que com os outros desafortunados que nem eu, esteja acontecendo o mesmo. E ainda nem pisamos na Fábrica… Parece até uma praga, né?

                   Apesar de ser uma espécie de insanidade, você acaba se acostumando. Você tem que se acostumar com essa vida de cão. Digo, de Aluno. Porque num futuro próximo, isso pode ser necessário. Somos um exército, lembra? A real é essa.

                   Mas, na teoria, as ‘férias’ (tsc) não são férias propriamente ditas (tsc, tsc, tsc…). Ou seja, não são para seu descanso, para seu lazer, para sua diversão. Não. (Nessa hora ouço a voz do instrutor dentro da minha cabeça):

                   — Nem começou, Aluno, e você já quer descansar, seu monstro?

                   Pois é, instrutor. Tá foda.


QUER FÉRIAS, NÉ, ALUNO…

                   Essas ‘férias’, entre muitas aspas, são mais como um curto período que o Aluno  tem para se preparar para sua movimentação. Afinal, férias são direito. Mas, o período é por conta da firma. O quando, meu parça, é concessão. Somos militares, só para lembrar mesmo.

                   A movimentação, o tal do trânsito, nada mais é que a saída da sua antiga casa, vulgo Período Básico, para a próxima: a tão aguardada Qualificação. Cada um, claro, para sua respectiva Escola de formação.

                   Ou melhor… Vou explicar de novo, para não haver dúvidas, hein.

                   Férias mesmo, para descansar, revigorar a carcaça e tal, só depois de formado. Ou nem isso. Pra falar a verdade, férias valendo mesmo, à vera, só quando formos para a reserva.

                   Agora, para ser mais sincero… na real mesmo, no duro, sem perder a segurança:

                   — Férias só quando você morrer, Aluno!

Férias?

                   A barraca dez praças com trinta instrutores dentro da minha cabeça não sossega, meu irmão! É a Síndrome do Licenciamento. Mas, eles têm razão.

Nossa vida é sacrifício. É abdicação. É desprendimento e servir. Somos Soldados.

                   No sentido transcende da palavra, baseada num estoicismo, na disciplina, no autocontrole e no dever. Ainda que nos esqueçamos. A formação ensina exatamente isso.

                   Porém, a formação acaba, nossa missão não.

                   E a ideia também é que durante esse período o bendito do Aluno mantenha, pelo menos, seu condicionamento físico em dia. Porém, praticamente ninguém faz nada (exceto alguns tarados). 

                   Todo mundo esquece as cobranças e, vez ou outra, alguns dão umas corridinhas, pagam umas flexões, algumas barras e já era.

                   Ou nem isso, muitas fardas voltam menores que saíram. Elas diminuem, não sei como. E fazem o Aluno parecer que cresceu para os lados, jamais para cima. Pode ser o sabão ou o amaciante… De qualquer forma, evitem.


O ALUNO É UM XÊNIO MESMO

                   Tentei fazer um pouco de cada: treinar e descansar. Juntar a teoria com a prática. Eu e todo meu quociente de inteligência. Tinha tudo para dar certo. Fiz até um plano mental.

                   Eu estudaria nas duas primeiras semanas, treinaria cinco dias por semana e veria filmes de guerra pra chegar como um cachorro louco nas duas últimas.

                   Cheguei a sair para comprar algumas coisas de enxoval, entre distintivos, sutaches, essas coisas.

                   Um dia coloquei uns manuais em cima de uma mesa. Enchi um copo de água. Sentei na cadeira e… dormi.

                   Depois, fui mais esperto que minha própria esperteza.

                   Larguei de mão.

                   Parei de pensar em quartel, em ser militar, nos kits do campo que estavam um zaralho e nas vozes que rondavam minha cabeça. Dei atenção a projetos pessoais e a minha vida e foquei em descansar de verdade.

                   É férias, pô! A Síndrome do Licenciamento…


O SACRIFÍCIO DE QUEM FICA

                   Mas, apesar de estar indo para a EsSA, conhecida universalmente por uma fama nada agradável, a dificuldade de quem fica em casa pode ser pior do que a de quem vai para a Escola:

                   — A EsSA é pau, Aluno, prepara! Era só o que diziam no Básico.

                   Para quem fica é pior. Acredite.

                   Enquanto nós, Alunos, estamos ocupados, física e mentalmente, nossos familiares estarão na mesma rotina de antes. Porém, vivenciando cada detalhe dela com toda nossa ausência.

                   Uma carga emocional difícil de lidar no começo. E que só mesmo o tempo, a resiliência e um tanto de paciência podem vencer.

                   No fim, todos acabam se acostumando. A distância se torna mais suportável, a saudade mais branda e o emocional mais calejado. Após alguns ajustes, a nova vida se integra à antiga. E tudo tende a ser um pouco mais tranquilo.

A saudade de quem fica.



É A SÍNDROME DO LICENCIAMENTO MILITAR

                   Neste momento, no qual rascunho este texto, estou no ônibus a alguns quilômetros da EsSA.

                   — Pronto, Aluno, agora vamos começar a trabalhar de verdade!

                   A sensação de mudança (e o cheiro de sanhaço no ar) é palpável. Dificuldades e grandes desafios nos esperam. Para cada um deles, um momento inesquecível de dor superação.

                   Entretanto, assim como as férias, nada dura para sempre.

                   A EsSA passará. A dificuldade passará. Os dias difíceis, o tempo ruim, passarão. Como um Sargento Comandante de Pelotão na EsSA, dias depois:

                   — “Nada, Aluno. Absolutamente nada para a inexorável marcha do tempo.”

                   Ao que o Comandante da Escola constantemente repetiria:

                   “Já ouço os toques de formatura!”

                   E eu sempre pensava, mas que ouvido absoluto é esse!?

                   Os momentos de dor não atravessarão a eternidade. Nem mesmo os momentos de descanso.

                   A ansiedade cresce. Dá vontade de chegar logo pra acabar logo. Mas, a gente sabe que não é assim.

                   Ainda tô de férias!

                   Daqui a pouco chegam outros licenciamentos.

                   É a maldita Síndrome do Licenciamento